"O RECOLHER DOS ILUSTRES" - SIR BOBBY ROBSON

Lembro-me como se fosse hoje, de estar sentado à hora do almoço num espaço comercial em 1995, quando me apercebi da presença de uma figura de cabelo grisalho, simpática, com um sorriso e uma alegria contagiantes. Pelo sotaque, apesar de ter dificuldade em entender tudo o que dizia à distância, reparei que era britânico e a sua cara perfeitamente reconhecível… Aquela figura simpática era o treinador do FC Porto, Bobby Robson. Com alguma vergonha lá me levantei e dirigido pela minha mãe lá lhe pedi um autógrafo. Da sua altura imensa tendo em conta a minha idade, o sorriso e alegria de conversar com quem o rodeava era inegável…. Um verdadeiro Homem do futebol. 

Bobby Robson levou a sua vida assim, alegre e encantado pelo futebol e por tudo o que o futebol lhe deu.


Como jogador esteve presente no Mundial de 58 na Suécia, representando a Inglaterra num total de 20 partidas, marcando 4 golos. Começou e terminou a sua carreira no Fulham onde jogou um total de 344 jogos, marcando 78 golos, num total de 11 anos. Representou também o West Bromwich Albion durante 6 épocas sendo capitão e também a transferência mais cara do clube à data de 1956 por £25,000. No final da carreira, mudou-se para o Canadá para ser jogador-treinador dos Vancouver Royals, mas nunca jogou nenhuma partida oficial pelo clube, tendo saído em 1968 para rumar ao Fulham, também como treinador.

A sua história como treinador, para muitos desconhecida, começou a escrever-se de glória após assumir o seu terceiro, e mais longo, trabalho como manager no modesto Ipswich Town, isto depois de duas curtas passagens por dois dos clubes que representou enquanto futebolista, os Vancouver Royals e o Fulham.

Durante 13 anos (1969-1982) como treinador do Ipswich Town, o carismático treinador, apostando no desenvolvimento de jogadores da formação do clube, atualmente tão em voga no panorama desportivo mundial, alcançou feitos extraordinários para um clube modesto de uma cidade pequena, num país em que o futebol é verdadeiramente o desporto-rei. Conquistou uma FA Cup contra o favorito Arsenal em 1978 e uma Taça UEFA em 1981 contra os holandeses do AZ Alkmaar, tendo o Ipswich disputado campeonatos ingleses como nunca na sua história – 3º classificado em 74/75, 76/77 e 79/80; 2º classificado em 80/81 e 81/82. Tudo isto, apenas contratando 14 jogadores durante o seu percurso no clube, apostando verdadeiramente na prata da casa.

Depois seguiu-se o seu mais duro e porém mais belo desafio, liderar a seleção do seu país. Comandou-a em dois mundiais: em 86 foi eliminado por um génio argentino disfarçado de Deus e em 90 pela maldição das grandes penalidades (contra a Alemanha) que apenas foi quebrada neste Mundial na Rússia!!!

Saiu desiludido e sentiu-se injustiçado, mas ele era diferente… Apostou onde poucos treinadores britânicos alguma vez o fizeram, apostou no estrangeiro. Percorreu 3 países. Holanda, onde foi bicampeão pelo PSV. Portugal, onde foi treinador do Sporting CP, sem sucesso, e do FC Porto, onde alicerçou o sucesso que viria a culminar no Penta. Espanha, onde abraçou o reinado da Catalunha como sua casa e onde teve que lidar com a exigência e escrutínio, tanto da massa associativa blaugrana como da comunicação social espanhola – imagine-se que a sua equipa chegou a ser assobiada em Camp Nou depois de uma vitória por 8-0 contra o Logroñes. Deu-nos a conhecer o fenómeno, para muitos o melhor Ronaldo, numa equipa onde cintilavam Figo, Stoichkov, Luis Enrique, Popescu, Guardiola, Blanc.... Desta equipa, faziam também parte Vítor Baia, Fernando Couto e Julen Lopetegui. Ganhou 3 troféus, a Supertaça, a Copa do Rei (depois de uma reviravolta mágica em Camp Nou nos quartos-de-final contra o Atlético de Madrid) e a Taça das Taças, perdendo unicamente o título para o arquirrival Real Madrid. O fenómeno marcou 47 golos nesse ano 96/97!!! Foi o treinador do ano para a UEFA.

Apesar de todo este sucesso, o presidente Nuñez decidiu contratar o holandês Van Gaal e vender Ronaldo para o Inter de Milão.

Em 1998, voltou para o PSV onde ficou em terceiro lugar e garantiu a classificação para a Liga dos Campeões.

Mas, o grande orgulho da sua carreira apenas surgiria no ano seguinte. Após tanto tempo de espera, recebeu o convite do clube do seu pai, do seu clube de infância, o Newcaslte United, onde sabia que não podia falhar…. E não falhou. Levou o clube da descida de divisão ao 11º lugar nesse ano. Reconstruiu o clube e devolveu-lhe o seu orgulho há muito desvanecido, levando-o às competições europeias e a um honroso 3º lugar na Premier League.

Por onde passou, Sir Bobby Robson, condecorado pela Rainha em 2002, espalhou boa disposição e uma paixão única pelo futebol com a atitude de um gentleman inglês à moda antiga. Para muitos estava à frente do seu tempo… Para muitos o melhor treinador britânico da história… 

Verdadeiramente, apenas perdeu a dura batalha contra o cancro em 2009, com a qual se deparou pela primeira vez em 1995, porque sempre foi um vencedor por onde passou.

O Futebol precisa de mais pessoas como Sir Bobby, alegres e apaixonadas.


“What is a club in any case?
Not the buildings or the directors, or the people who are paid to represent it.
It’s not the television contracts, get-out clauses, marketing departments or the executive boxes.
It’s the noise, the passion, the feeling of belonging, the pride in your city.
It’s a small boy clambering up stadium steps for the very first time,
Gripping his father’s hand, gawping at that hallowed stretch of turf
beneath him and, without being able to do a thing about it, falling in love”

Sir Bobby Robson

Um abraço,

C9

"O Recolher dos Ilustres" é um espaço de crónica, assinado por Gonçalo Freitas!"


Comments

Popular posts from this blog

10 JORNADAS, 10 DESTAQUES!

"O RECOLHER DOS ILUSTRES": A FINAL DE SONHO

MUITO MAIS DO QUE UM JOGO!