CRÓNICA DO DERBY: FRIO DE MÃO, QUENTE DE CORAÇÃO!
Ontem jogou-se mais um derby no Estádio da Luz. Houve quem
tenha feito capa dizendo ser” o jogo mais apaixonante do futebol português.”
Será? O FC Porto não tem adeptos apaixonados nos seus jogos? Os “pequenos” não
contam? Quando se é redutor nas afirmações, sobretudo quando se trata de
futebol, normalmente comete-se um erro e aqui permitam-me a humildade de o
apontar.
PRÉ-JOGO: O JOGO DAS
PALAVRAS
Um derby não é derby senão tiver um pré-jogo carregado de
declarações, análises, prognósticos, estatísticas e previsões sem fim. Neste
novo episódio, surge Rui Vitória a apelar à unidade dos benfiquistas, trazendo
à baila a história dos “e-mails” como atentado ao coração da nação encarnada.
Em termos de comunicação, parece-me lógica a intenção de Vitória de galvanizar
a sua massa associativa em torno de um jogo que, embora tenha repetido vezes
sem conta que não era decisivo e que ficariam a faltar 18 jornadas para o final
do campeonato, era determinante para as aspirações do Benfica ao título. Por
todas as razões! Por poder ficar a 6 pontos dos seus rivais em caso de derrota
e, acima de tudo, na única competição que resta ao Benfica na presente época.
Mas a um treinador que sempre recusou falar no caso e, finalmente referir-se ao
mesmo na véspera do jogo dizendo “estão a preparar um atentado ao coração dos
benfiquistas” parece-me demasiado demagogo e vazio de fundamentação. Se não
negam os “e-mails” para quê referir atentados a algo que não conseguem negar?
Se estão seguros da sua falsidade, para quê comentá-los se não existem? Se o
caso está entregue à Polícia Judiciária, para quê referi-los se a justiça dará
razão a quem nada teme? Parece-me óbvia a utilização do caso para levantar a
cólera da denominada “onda vermelha”. Quando está tudo em jogo, não há reserva
nas armas. Até Cardinais renasceram.
Quanto a Jorge Jesus, falou da segurança do seu Sporting,
presente em todas as competições, em vantagem pontual no campeonato e detentor
de um futebol de melhor qualidade para a generalidade. Um Sporting que
procuraria a vitória, sem receios, confiante na sua equipa mais estável e
solidificada, apoiada por milhares de adeptos que estariam presentes na Luz,
entre eles Bruno de Carvalho. O Sporting, nas palavras de Jesus, ia para o
derby para “desempatar” os dois duelos anteriores: um 0-3 de gala e sem
discussão na primeira época de JJ e uma derrota por 2-1 carregada de mãos de
Pizzi e Semedo que enraiveceram os leoninos. Por isso o Sporting queria provar
a sua “superioridade” e dar um golpe forte nas aspirações dos encarnados.
Legítimo e adequado! Mas quando a bola rolou, tudo foi diferente!
QUANDO A BOLA ROLOU
Numa entrada de muitas perdas de bola e grande luta a
meio-campo, nenhuma das equipas conseguiu atingir o estatuto de domínio de
jogo. Até ao golo de Gelson Martins onde mais uma vez questões de legalidade se
levantaram, ou não estivéssemos nós em Portugal onde até metade de um pé de um
jogador à frente de uma linha traçada por uma transmissão televisiva serve para
fazer cair o Carmo e a Trindade. Tudo bem, quem não está habituado? Somos
assim, infelizmente! A partir desse momento, Jesus e os seus jogadores não
cumpriram o seu desígnio e aspiração de serem superiores. Muito pelo contrário.
Recuaram, defenderam, contentaram-se com a vantagem mínima e Jesus confirmou essa
intenção no final do jogo. Nem a bola de Gelson na cara de Varela serve para
mascarar a atitude “italiana” do Sporting a partir do golo! Erro grave! Com
muito mérito, o Benfica veio para cima, atacou muito e procurou o golo
exaustivamente. Tão exaustiva como o lançamento de cartolinas “mortíferas” a
Fábio Coentrão. Se Jesus falou das 0 defesas de Rui Patrício em todo o jogo,
não falou dos inúmeros remates dos encarnados dentro da área (quase uma
dezena), bem como do corte “impossível” de Piccini em cima da linha de golo e
da pontaria de Krovinovic à barra da baliza de Patrício. Mas falou nas “mãos”,
aliás, falaram os dois. E aqui permitam-me dizer o que os meus olhos viram. Se
no nosso mundo futebolístico discutimos foras de jogo como o de Acuña, claro que
podemos discutir uma mão posterior a um remate violentíssimo a menos de 1 metro
de distância. Nós somos assim, apaixonadamente irracionais! Claro que podemos
discutir um braço de William Carvalho em disputa de bola com Jiménez como se
fosse algo pleno de intenção e ultrajante! Nós somos mesmo assim, donos de uma
verdade da cor da nossa camisola, que cega o nosso espírito de desportivismo.
Claro, se o tivermos! E se estivermos mesmo no nosso Mundo colorido pelas
tonalidades da nossa camisola, falaremos ou não da entrada para vermelho direto
de Fejsa e do penalty de Piccini. Porque no nosso Mundo, esta mão do italiano é
clara e inequívoca face às mãos de Pizzi no ano passado (ou não! Depende do
nosso Mundo), e o lance de Fejsa não entra na nossa análise (ou entra! Depende
do nosso Mundo). Cá para mim, os meus olhos dizem que é penalty de Piccini e
vermelho para Fejsa.
No final das contas, fica para a história um derby onde o
Benfica foi superior e mereceu ganhar. Uma história que se completa com um
Sporting que se fechou após o golo e mereceu empatar ao cair do pano pela sua
postura resultadista! Uma história que não termina sem mais uma vez se falar em
vídeos, árbitros e vídeo-arbitros, que mais uma vez nos transmitem a sua não
eficácia. Afinal de contas, o jogo fica mais verdadeiro com esta “tecnologia”?
Quem decide? É objetiva toda esta subjetividade das decisões?


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